|
O Senhor Barão de Itararé, nosso amigo.
Começar por dizer que é grande a responsabilidade em falar sobre o Barão torna-se lugar comum. Enaltecer a sua inteligência, cultura, é alargar o lugar comum. Falar sobre o político, intelectual e humorista vai se tornar redundância, pois que viveu a sua época associava isso tudo á sua figura. E aí a brecha do lugar comum já foi tão alargada que virou cratera. E não vamos repetir o que todo mundo sabe, pois os que não sabem ficarão sabendo lendo essa reedição do segundo Almanhaque.
Então vamos falar do homem, do Aparício Torelly, Aporelly para os íntimos – a polícia getulista, o próprio Getúlio Vargas e o Beijinho, seu irmão, os companheiros de cárcere nos anos ditos tranqüilos pelos saudosistas suspirosos do estado novo. E que leu as Memórias do Cárcere e quem conhece o Aporelly , fica com uma bruta raiva do seu autor, o insigne, amargo, festejado, realista, se como o sertão - ah, um cactos o cáustico Graciliano, quando relata o dia a dia de seus companheiros presos e onde focaliza um Aporelly piadista, loquaz e festeiro; durante o dia sempre tentando levantar o moral de todo o mundo e um pobre desvalido, acometido de tremuras e suadeiras á noite como que atrapalhando, incomodando o repouso de seus companheiros. Um covarde travessado de bufo? Não seria isso mesmo que a gente lê nas entrelinhas? Sempre cercado de gente que conseguia ainda rir apesar da situação assaz incômoda de estarem num navio presos ao largo da Baia de Guanabara. Rir de que e do que ? Como entenderia tal coisa aquele circunspecto homem das Alagoas, que não entendia , não sabia o universo que habitava aquela cabeça privilegiada – sua força de caráter, sua vontade indômita. Sabia lá Graciliano se essas noites nos dormitórios extensos de altas paredes e silêncios seculares onde o interno de São Leopoldo, nas mãos daqueles Mestres ( que ele, convenhamos, amava ) alemães e jesuítas, como se não bastasse serem só alemães ou só jesuítas, aquele menino carente e vulnerável, órfão de mãe e premiado por um pai truculento e lacônico, ou seriam essas noites no Pedro I não o reflexo da sua infância já tão antiga, mas, a realidade do aqui e agora da infância e adolescência de seus filhos – sem mãe e também jogados ás traças por um amigo desleal a quem Aporelly confiou.
Confiar – eis um traço de sua personalidade. E Aquele menino, o Aparício, tinha tudo, mas tudo mesmo para tornar-se um álgido e amargo ser, filhos daquelas plagas geladas, filho daquele destino errado, mas, milagre da natureza, síntese a própria síntese da dialética que tanto o orientou e o alicerçou, torna-se a pessoa mais doce, afável, confiante e pura de sua época. Estruturalmente pacifista, tinha horror á violência física e moral.
Quanto pior, pior mesmo, dizia. Mas isso nunca o impediu de dizer, escrever, descrever o que achava que era a verdade. Idôneo, mas não se vendeu e nunca hesitou em desmascarar as maroteiras e os velhacos. E assim era o Aparício, que apesar de hemiplégico e saúde vulnerável, enfrentou como podia a fúria e os desmandos e arbítrios da "doce" época getulista. E isso era coragem mesmo e não falácias de um bufo. Agora, o que mais enternecia no Aparício era a sua lealdade. De caráter e aos princípios marxistas. A um comentário jocoso sobre a morte do primeiro presidente militar, golpista de 1964, retrucou com energia, defendendo-o dizendo ser ele um produto do meio...
- E o livre arbítrio Sr. Barão ? Ora, ele foi conivente desta farsa, ele poderia Ter escolhido ? - Não.
- Mas então caímos num determinismo mecanicista sem saída ...
- Ele não teve escolha.
E estava encerrada a conversa. Cenho franzido, não admitia mais discussão.
E dentro dessa máxima do Marx ( O homem é produto do meio ) eram encaixados os afetos e desafetos, se é que ele os teve.
Amava tudo que o cercava, até suas formiguinhas doceiras, suas inquilinas e hóspedes tratadas com pompas e altas considerações as quais fazia uma longa preleção antes de podermos Ter a honra de usar sua pia ( onde elas proliferavam ) para arrumar sua desordenada cozinha. Amigo incondicional dos amigos, numa entrega graciosa e esquecida de retorno.
Respeitado e amado pelos adversários, quantas vezes em sua casa, logo após a revolução redentora, seu telefone não parava e era só ouvir seus agradecimentos e adivinhar do outro lado os efusivos "conte comigo se precisar de alguma coisa". Parece que o Rio de janeiro em peso se preocupou em proteger o Sr. Barão. Barão da sanha dos gloriosos. Agora o difícil mesmo era acompanha-los pelas ruas do centro do Rio. Não porque caminhasse com dificuldade, arrastando uma perna. Gente que não acabava mais, atravessando as perigosas avenidas, passando, olhando, voltando, querendo abraçar, conversar, confraternizar. Nessa hora a gente até pensava que o mundo era nosso e era bom, porque a gente também era amigo do Barão. - Sr. Barão, diz-nos, qual é o segredo de seu Sex-apeal?
Sua fidelidade ás teorias marxistas também enternecia. Naquela época em que ser marxista era ser materialista – era negar mesmo qualquer religiosidade ( menos a do culto á personalidade, ,mas só a Simone de Beauvoir sabia disso quando dizia que as duas maiores religiões cultuadas no mundo eram o catolicismo e o marxismo. O Aparício, que descobrira sem a ajuda de Shakespare, que há de mais mistérios entre o céu e a terra que a vã filosofia poderia explicar, tentava conciliar para si mesmo o materialismo histórico e a religiosidade ou paranormalidade ou fenômeno ou seja o que for que lhe saltava á compreensão e ao entendimento. E sem abjurar perante aqueles juízes-ateus-inquisitores, estáticos e metafísicos, a própria dialética. Fiel a si mesmo, explicava o imponderável traduzido em seu amor pelo Cristo e pela Virgem Maria, da qual, trazia nos últimos tempos uma imagem de gesso dentro de sua maleta cheia de papéis e lápis que levava onde ia e conforme com quem, retirava e punha encima de um móvel próximo como em sua casa. Estava sempre próximo, como em sua casa. Estava sempre próximo á ela. Esclerose – só é! Sentenciava alguns sectários, donos da verdade. Pureza, alma sensível, gentil. Caráter impoluto. Teve dignidade por toda a sua vida – respeito por todo mundo e por todas as coisas.
E teve dignidade ao morrer. Morreu sozinho para não sofrerem por ele enquanto estava morrendo. Carminda de Azevedo Mendes Steed. |
|