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Todo depoimento sobre uma pessoa é sempre uma autobiografia. O meu, por exemplo, sobre Aparício Torelly, é que eu ainda não tinha nascido e ela já era Barão do humor. Se primeiro, por inexistência e depois por criancice, não o alcancei nos anos trinta, nem por isso ele deixou de me alcançar através de A Manha, de 1946., " o único quintaferino que sai ás sextas ". Ele podia achar o máximo essa autogozação, mas em São Luiz do Maranhão eu tinha que recicla-la para " o único quintaferino que chega dois meses depois ".Parece que devi aos gastos de guerra estava em vigor o racionamento de troco. A Manha custava um passe de bonde. Eu ia para o colégio a pé, rindo. Sou-lhe grato por ter amenizado as ladeiras que por sua causa tive que subir. Já no Rio, só vim a ter contato pessoal com ele aos 73 anos de idade ( dele ). O motivo era uma antologia do ; A Manha, que até hoje não saiu. Vamos debitar isso ás águas passadas, em que o seu título inventado em pleno fogo da revolução de 30, de Marechal almirante brigadeiro do ar condicionado" , sobreandava a sério. Agora, porém, temos aqui gente nova indo ao Barão de novo. Gente que descobre nesse Almanhaque de 1955 a sua modernidade como antecipador das duplas de criação. Quanto a isso, de fato, ele valia por dois, pois fazia ao mesmo tempo texto e direção de arte. Também em matéria de valorização profissional não deixava por menos: nos áureos tempos de A Manha ganhava o triplo, contabilizando a sua função de empresário. Os autores deste Almanhaque descobrem - e isso é que é chocante - a sua atualidade. Sinal de que os ridículos de hoje ( que fazem de sua ridicularidade, matéria de promoção ) estão todos retratados, sem necessidade de retoques, no Barão de Itararé. Era nesse ponto que eu queria chegar: o ponto em que ele transpôs o seu personagem do plano literário para o plano da realidade. Esse aspecto nuca foi muito bem entendido - e ele se valia disso, já que davam crédito ao que era uma farsa. Ele mesmo me disse: " As pessoas nunca sabiam se eu estava falando sério ou não ". De fato, o Barão de Itararé que ele incorpora sempre foi a síntese de tudo que ele criticava. Daí a sua imensa e eterna popularidade: porque o povo não é composto de barões de Itararé.
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